Tem pessoas
que marcam a nossa vida para sempre.
Na minha trajetória profissional tive o
privilégio de conviver com profissionais competentes que tiveram a paciência de
suportar meus erros e me ensinar. Altair Ramalho foi um deles.
Eu mal sabia
escrever quando cheguei ao Diário da Manhã , em Ponta Grossa, para ser
estagiária, na década de 80. Estava no primeiro ano de faculdade e como dizia
Ramalho - não sabia nada da profissão, tinha muito a aprender.
Passei
muitas horas degravando fitas cassetes, com entrevistas de políticos paranaenses
que eram datilografadas em laudas numa velha Remington. Depois de algum tempo fui
agraciada com o privilégio de passar para a redação.
Meu primeiro
editor foi Altair Ramalho. Sem dó nem piedade da minha ignorância ele exigia perfeição.
Rasgou e
jogou no lixo da redação inúmeras laudas de matérias que eu havia datilografado
com imenso sacrifício. Não aceitava lauda "sujas", ou seja, corrigidas
com Errorex.
Comecei na
polícia e só muito tempo depois Ramalho me deu oportunidade de aventurar por
outras editorias. Algumas vezes eu o acompanhei em suas coberturas políticas.
A passagem
mais marcante foi num churrasco com o "Homem do Chapéu" (José Eduardo
de Andrade Vieira), que era candidato na época. Em certo momento, quando o
álcool já havia tomado conta da cabeça dos convidados, José Carlos Martinez, que
era candidato a governador, subiu num banco e em meio a um discurso etílico disse
mais ou menos o seguinte:
"Partido
político é igual a mulher. A gente experimenta, se gostar a gente casa. Se não
gostar a gente larga".
Ramalho,
jornalista experiente, me disse: - "anote isso".
Dia seguinte
a frase foi publicada no Diário da Manhã. Para meu espanto, a repercussão foi bombástica.
Entidades de defesa das mulheres se manifestaram contra Martinez, que estava em
plena campanha política. Jornais de circulação nacional e a Revista Veja repercutiram
a frase.
Passou
alguns dias, Martinez foi a Ponta Grossa. Ramalho me incumbiu de entrevistá-lo,
ou melhor, de fazer apenas a seguinte pergunta:
- Se o
senhor ganhar as eleições como irá tratar as mulheres?
Martinez
virou furioso e me respondeu:
- Como trato
minha mulher e minhas filhas!
Depois disso,
o candidato nunca mais quis falar comigo.
Martinez foi
tesoureiro da campanha de Fernando Collor, dizem que foi sócio de PC Farias.
Ele morreu num acidente de avião os 55 anos.
Devo essa e
muitas outras ao Ramalho, que quase todas as semanas me demitia do jornal. Nos
intervalos me elogiava. Nossas brigas eram apaziguadas por Adail Lemos Inglês,
dono do Diário da Manhã.
Hoje,
Ramalho se foi. Gostaria de dizer adeus pessoalmente, mas a distância me
impede.
Fica aqui o
registro de minha saudade e o agradecimento público a esse grande jornalista
que tanto me ensinou.


09:46
Inês Ferreira

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