meus registros

inês ferreira

24 de set. de 2013

Altair Ramalho


Tem pessoas que marcam a nossa vida para sempre. 
Na minha trajetória profissional tive o privilégio de conviver com profissionais competentes que tiveram a paciência de suportar meus erros e me ensinar. Altair Ramalho foi um deles.
Eu mal sabia escrever quando cheguei ao Diário da Manhã , em Ponta Grossa, para ser estagiária, na década de 80. Estava no primeiro ano de faculdade e como dizia Ramalho - não sabia nada da profissão, tinha muito a aprender.
Passei muitas horas degravando fitas cassetes, com entrevistas de políticos paranaenses que eram datilografadas em laudas numa velha Remington. Depois de algum tempo fui agraciada com o privilégio de passar para a redação.
Meu primeiro editor foi Altair Ramalho. Sem dó nem piedade da minha ignorância ele exigia perfeição.
Rasgou e jogou no lixo da redação inúmeras laudas de matérias que eu havia datilografado com imenso sacrifício. Não aceitava lauda "sujas", ou seja, corrigidas com Errorex.
Comecei na polícia e só muito tempo depois Ramalho me deu oportunidade de aventurar por outras editorias. Algumas vezes eu o acompanhei em suas coberturas políticas.
A passagem mais marcante foi num churrasco com o "Homem do Chapéu" (José Eduardo de Andrade Vieira), que era candidato na época. Em certo momento, quando o álcool já havia tomado conta da cabeça dos convidados, José Carlos Martinez, que era candidato a governador, subiu num banco e em meio a um discurso etílico disse mais ou menos o seguinte:
"Partido político é igual a mulher. A gente experimenta, se gostar a gente casa. Se não gostar a gente larga".
Ramalho, jornalista experiente, me disse: - "anote isso".
Dia seguinte a frase foi publicada no Diário da Manhã. Para meu espanto, a repercussão foi bombástica. Entidades de defesa das mulheres se manifestaram contra Martinez, que estava em plena campanha política. Jornais de circulação nacional e a Revista Veja repercutiram a frase.
Passou alguns dias, Martinez foi a Ponta Grossa. Ramalho me incumbiu de entrevistá-lo, ou melhor, de fazer apenas a seguinte pergunta:
- Se o senhor ganhar as eleições como irá tratar as mulheres?
Martinez virou furioso e me respondeu:
- Como trato minha mulher e minhas filhas!
Depois disso, o candidato nunca mais quis falar comigo.
Martinez foi tesoureiro da campanha de Fernando Collor, dizem que foi sócio de PC Farias. Ele morreu num acidente de avião os 55 anos.
Devo essa e muitas outras ao Ramalho, que quase todas as semanas me demitia do jornal. Nos intervalos me elogiava. Nossas brigas eram apaziguadas por Adail Lemos Inglês, dono do Diário da Manhã.
Hoje, Ramalho se foi. Gostaria de dizer adeus pessoalmente, mas a distância me impede.

Fica aqui o registro de minha saudade e o agradecimento público a esse grande jornalista que tanto me ensinou. 

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